Noutro dia , por um descuido, o celular tocou em sala de aula. Solicitei aos alunos que me dessem licença e saí para atender. Tratava-se de uma amiga, que ligou para me informar a da hora e data do sepultamento do pai de um colega. Na verdade, um colega de trabalho com quem eu me relacionava bem, mas em comum, só mesmo a divisão de questões pedagógicas. “Sim, ele está arrasado.” Percebi que os dois estavam, eram companheiros de vida. Fui informada ainda de que toda a equipe compareceria e se encontrariam pontualmente às 14 h.
Fiquei parte da manhã, que acabara de começar, pensando na situação e até cogitei a possibilidade de ir pelo colega que , conforme era sabido, estava em péssimas condições Será que ele gostaria de ser consolado por mim? Logo comecei, para variar, a formular questões. Lembrei-me do dia em que meu paizinho querido se foi e , da triste obrigatoriedade de cumprimentar pessoas com as quais, sinceramente, não pensei em partilhar aquele momento. Lembro-me , também, de ter desviado do olhar de alguns visitantes e de perceber os que não conheciam meu pai com um olhar curioso para dentro da urna a fim de conhecer o anfitrião do evento.
Ora, que momento singular é este. Quem em sã consciência gostaria de ser visto ou conhecido com a falta de vida estampada no rosto. O mesmo vale para os acamados em UTI. Vi meu pai receber visita de quem nem conviveu com ele, retirando o meu direito e de outros familiares de estarmos um pouco mais de tempo ao seu lado. Vamos respeitar a vaidade de quem se foi ou de quem não se encontra em condições de receber visitas.
Resolvi , então, criar uma conduta . Só compareço à ocasião de morte de quem eu já comemorei a vida. Para ser mais clara, só irei ao velório de quem eu fui ao aniversário. E isso vale como regra geral e absoluta, independente do grau de intimidade ou parentesco que eu tenha com quem perdeu a vida ou de seus familiares.
Desde então, não fico mais em dúvida se compareço ou não a um evento desse quilate. Se eu fui ao seu aniversário, tenha a certeza de que farei de tudo para ir ao seu sepultamento e dividir a dor da sua perda.
O mesmo vale para você que comemorou a passagem do meu aniversário comigo. Sinta-se , verdadeiramente , intimado por mim a se despedir quando eu deixar este plano. Se você tiver sido meu amigo, certamente poderá dar consolo aos que sofrerão com a minha ausência.
Em resumo, quero viver minha palidez funesta apenas ao lado de quem me considerou em vida . Aos conhecidos dos meus parentes, deixem para consolá-los depois desse meu momento tão singular é extremamente particular . O bom senso deve reinar além da vida.
Quanto ao meu colega, acabei sabendo que nem todos compareceram, conforme o combinado . Talvez outras pessoas tenham seguido a alguma linha de pensamento próxima a minha. E eu não posso negar que me senti muito bem ao encontrá-lo uma semana mais tarde , período de duração do nojo , e poder dizer , sem me sentir melindrada, o que , realmente, me cabia : “ Meus sentimentos”.
Mônica Jogas
Eu me Perdoo - Mônica Jogas
Eu me perdoo pelos meus medos. Eu me perdoo por ser a criadora dos fantasmas que me rondam. Eu me perdoo pela vida que construí e pela estrada que resolvi trilhar. Eu me perdoo por me condenar. Eu me perdoo e me absolvo com a arte da escrita.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
domingo, 23 de outubro de 2016
Carta ao meu pai
Meu paizinho querido,
Eu não sei se o
senhor já pode nos ver, porque o nosso tempo é diferente... Muitas coisas
aconteceram nesses longos anos. Sua neta foi diagnosticada como autista, e hoje
eu sei que o senhor tentou me avisar de que algo não ia bem, quando percebeu,
primeiro do que todo mundo, a ausência de fala. Se eu fechar os olhos, ainda
escuto a doçura de sua voz, dizendo: “Minha filha, essa menina já não deveria
estar falando?” E eu lhe disse que ela
era preguiçosa... Pois é , papai, agora eu estou aqui com a sua princesa e o meu reinado parece ter desmoronado. Cada dia tudo se torna mais difícil de ser solucionado e as
coisas não andam, não acontecem. Em
relação a ela, posso lhe dizer que já passamos por dias mais difíceis.
O seu neto passou para a faculdade pública, como
era do seu gosto, mas tenho a impressão de ainda não ter se encontrado no curso . Ele
está feliz, ainda sente a sua falta. Diz que gostaria de conversar sobre
política e entender sua visão. Eu agradeço a Deus, porque sei que a defesa esquerdista construída por ele, entraria em
atrito com todo o seu conservadorismo. Ele já tirou carteira de habilitação e está uma
fera ao volante ( quase isso). Como o senhor previu, Renan é meu amigo.
Por falar em
política, pai, as coisas aqui também andam complicadas. Tem presidente perdendo
o direito de exercer o seu cargo, o vice assumindo e colocando o país de cabeça
para baixo. Agora estamos em época de eleição para prefeito e eu sei que o
senhor, que fez questão de votar mesmo sem precisar pelo avanço da idade,
ficaria triste. Os candidatos só se acusam, não há campanhas, entende? Eu que
tinha certeza, já comecei a ter vontade de anular.
Na televisão, só o
que é ficção lhe interessaria. Uma novela linda terminou com o ator
falecendo ( na vida real) nos capítulos finais. Pensei no quanto o senhor iria
se emocionar. A Escolinha do Professor Raimundo voltou com novos integrantes.
Eu me lembro do quanto gostava de
assisti-la. O filho do Chico Anysio assumiu o personagem que era feito pelo pai
, o mesmo com o Lùcio Mauro Filho. O programa está muito bem escrito e só não
parece melhor, porque o senhor não está aqui no meu sofá assistindo.
Dia 20 desse mês fez um ano que
a dona Maria se foi. E no mesmo dia que o senhor se foi, a dona Sônia também.
As duas deixaram muita saudade. Foi uma época muito difícil. Talvez disso, o senhor já saiba, né , pai.
Outro dia, larguei tudo na feira porque o
feirante não me atendeu com atenção. Eu o vi fazendo isso algumas vezes, e
agora sei bem o que sentiu.
É claro que o senhor ia querer saber da mãe, né ? Ela está
bem cuidada pela Angela, que dedicou a vida ao bem estar da D. Reny. Ela não nos
reconhece, mas às vezes tem uns flashes de memória. Vive cheirosinha, arrumadinha , com o cabelo curtinho e bem branquinho. Parece algodão. O senhor estaria
orgulhoso da sua filha mais velha.
A piscina também está azul, mas contratamos
uma pessoa para manter assim, porque não conseguimos deixá-la como o senhor
fazia.
Pai, publiquei um livro, como o senhor queria que eu fizesse. Sou recebida em algumas escolas
como escritora . Se o senhor já sentia orgulho de mim ao ser chamada de
professora, imagine se me visse palestrando em faculdades para cursos de
Pedagogia? Não há um só dia desses cinco anos, que eu não tenha pensado no
senhor. Na sua satisfação ou na sua insatisfação pelo curso da vida.
Tenho errado, pai. Tenho acertado, caído, levantado. Andei
ficando doente. A obesidade vem mostrando que não brinca em serviço. Vou me
tratar. Ainda precisam de mim por aqui.
A vontade de te encontrar me faz pensar em bobagens, em
fugas, mas eu tenho consciência de que abreviar o caminho, só o tornaria mais
longo e mais difícil. Então , vamos aguardar, né? Ninguém fica aqui para
semente. O senhor só foi primeiro do que eu ...
Cada um vai no seu tempo, estou
no aguardo, na fila.
Tenho certeza de que esta bem e espero que essa carta chegue
logo ao seu conhecimento.
Sinto falta do telefone tocando e do senhor me cobrando
presença sem ter completado nem doze horas de distanciamento. Deitar no teu
colo e receber o cafuné de domingo a tarde , me dava energia para começar a
semana.
Eu ainda não aprendi a caminhar sozinha, mas estou tentando.
Paizinho querido, eu estou morrendo de saudade.No tempo de Deus, estaremos juntos.
Sua
filha , Mônica Jogas
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Hoje
Hoje , como em nenhum outro dia , buscarei me encontrar com o que há de mais íntimo em meu ser.
Hoje,
olharei incansavelmente para o céu e,se eu
encontrar o Sol, com o seu calor me
energizarei.
Se lá
estiverem as nuvens,em cumplicidade, perceberei a chuva que há de purificar-me a
alma.
Se eu me deparar com uma estrela
cadente , seguirei seu rastro e, por fim, quando esta entrar em choque com a
atmosfera fará parte de mim.
Se uma
enorme constelação adornar o céu , encontrarei uma e somente uma para ser minha
amiga e confidente.Se somente
a lua lá se encontrar , refletindo a luz que recebe do nosso astro –rei, eu
sorrirei , e junto ao meu singular sorriso,a louvarei com uma linda prece.
Hoje, sem
resistir , atentarei aos mistérios do mar.
Se ele
estiver revolto, o respeitarei e desviarei o meu olhar.
Se calmo
eu o encontrar , buscarei a serenidade
que tanto necessito para prosseguir ; e no vai- e- vem das suas ondas
suplicarei para que da minha vida leve qualquer extremismo e devolva –me a neutralidade.
Hoje, sem
adiar,me curvarei ao encanto das
árvores, e sensivelmente, extrairei das mais frágeis a perseverança ,
das mais fortes a altivez.
Erguerei meu olhar para o cume da que despertar a
minha atenção , e me transportarei para abrigar-me tal qual os pássaros em seus
galhos firmes, a fim de recuperar o fôlego para seguir em direção a novos
horizontes.
Hoje, será
o dia de reconhecer a magnitude de toda
uma existência.
Será o dia
de encontrar-me, de reconhecer-me.
Será
,enfim, o dia de ressuscitar.
Mônica
Jogas
sábado, 23 de julho de 2016
A IMPUREZA DO AMOR
Ah, mas eu te amo...
Te amo!
Te amo! Te amo!
Te amo!
com a ignorância de um sábio.
com a impaciência de um monge.
com a incapacidade de um vitorioso.
com as ardentes chamas
de um iceberg.
Te amo !
Te amo! Te amo!
Te amo!
com a astúcia de um ser inanimado.
com a presença de espírito de um criado-mudo.
com a certeza de um amanhã definido.
com o frescor de um escaldante deserto
Te amo!
Te amo Te amo!
Te amo!
com a sonoridade do silêncio.
com o apurado paladar do insípido.
com a clareza do abismo.
com o estrondo volitar de uma pétala.
Ah, mas como te amo...
Te amo!
Te amo! Te amo!
Te amo!
com a mansidão de uma tormenta .
com as incolores listras do arco-íris.
com a constância de uma metamorfose
com o limite do infinito.
Te amo!
Te amo! Te amo!
Te amo!
com a candidez
da imoralidade
com a fé Cristã de um ateu
com fealdade da
ternura
com a vitalidade de um
moribundo
Ah, mas eu te amo!
Porque com palavras posso articular
Então não me contenho e desando a gritar
Te amo ! Te amo ! Te amo ! Te amo!
A você , cabe confiar que
Te amo! Te amo Te amo ! Te amo!
E para sempre vou te amar.
quinta-feira, 30 de junho de 2016
Paz
Estou precisando escrever
E , por assim entender,
o que se passa em mim
Porque estou tão só em desatino
Estou precisando divagar sobre as coisas
do céu, do ar e do mar.
Estou precisando rever amigos
reviver através das letras amareladas
e amarrotadas de um antigo diário
Na verdade, eu preciso ler e escrever
Ah, essas linhas tortas, trôpegas
que bailam dentro de mim
Palavras que procuro e encontro
Palavras de desencontro
Palavras que entoam e destoam
de toda estrutura inicial
Palavras que acalentam
que induzem ao sofrimento
Palavras escritas, lidas e refletidas
E todo esse amontoado de letras
me traz paz e me faz mais
Suspiro...
Suspiro...
Tão doce é o pranto que se desdobra em versos
A lágrima de um poeta é água de sofrer, de querer
Quem sabe se o riso discreto é o que esconde o pranto
e o manto que reveste a alma
Calma, menina, a noite se aproxima
e se afina com os teus pensamentos
E as letras surgem para virarem alento à tão triste dor
Estou precisando... Estou precisando
De paz
Prosa pra mais de meia hora
Escrever não é tarefa fácil
Não há como prever o acolá
Contento-me com o aqui e o lá
Ofício forte para quem quer um norte
Ou quem sabe a morte
de um personagem querido
Que chegou distraído
em seu conto de horror
Mas não era suspense?
Ah! Nem pense...
Esqueceu-se de que não há como prever
Sequer quem irá ler
Ou se há de gostar, quem sabe se amarrar ,
viciar ou até ignorar teus escritos?
Teus? Deus, quanta indagação
para a obra que ainda nem nasceu
Valeu pela inspiração
que desta mão andara sumida
E agora parece querer se chegar
Assim, meio combalida
Doida, perdida
Nos meios e entremeios da vida
Se contar, dá um nó
Ai, que dó! E dói...
" Calma que passa" - diz o gordo vigário
Daquele meio retardatário
que chega para lanchar
Com fome de ontem
Parece que nunca passa
Fala, fala e nada resolve
Bem fez o Padre Amaro
Pobre diabo...
Falar de padre também é pecado?
Vixe, melhor ficar calado, amuado...
Sabe-se lá?
Mas isso é conversa pra outra hora
Porque agora está tarde
E, de verdade,
não tenho nem mais meia hora.
Não há como prever o acolá
Contento-me com o aqui e o lá
Ofício forte para quem quer um norte
Ou quem sabe a morte
de um personagem querido
Que chegou distraído
em seu conto de horror
Mas não era suspense?
Ah! Nem pense...
Esqueceu-se de que não há como prever
Sequer quem irá ler
Ou se há de gostar, quem sabe se amarrar ,
viciar ou até ignorar teus escritos?
Teus? Deus, quanta indagação
para a obra que ainda nem nasceu
Valeu pela inspiração
que desta mão andara sumida
E agora parece querer se chegar
Assim, meio combalida
Doida, perdida
Nos meios e entremeios da vida
Se contar, dá um nó
Ai, que dó! E dói...
" Calma que passa" - diz o gordo vigário
Daquele meio retardatário
que chega para lanchar
Com fome de ontem
Parece que nunca passa
Fala, fala e nada resolve
Bem fez o Padre Amaro
Pobre diabo...
Falar de padre também é pecado?
Vixe, melhor ficar calado, amuado...
Sabe-se lá?
Mas isso é conversa pra outra hora
Porque agora está tarde
E, de verdade,
não tenho nem mais meia hora.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
De beijos
Beijo que te quero beijo
Beijo de tua língua sã
Beijo de mulher ardente
Que arrepia a mente
Aroma, flor hortelã
Beijo que te quero beijo
Beijo que me deixa louca
Beijo no correr da rua
Madrugada nua
Desbravada e rouca
Beijo que te quero beijo
Beijo que preenche a boca
Beijo, amor salivado
Cheiro de pecado
Pronto a percorrer
Beijo que te quero beijo
Beijo que te quero ter
Beijo em mundo vazio
Á alma, arrepio
Volto a me esconder
Beijo que te quero beijo
Beijo que te quero bem
Beijo de Adão sem Eva
De maçã , me enleva
Vida a conhecer
Beijo que te quero beijo
Beijo, quero um beijo teu.
Mônica Jogas
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