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domingo, 23 de outubro de 2016

Carta ao meu pai

Meu paizinho querido,


Eu não sei se o senhor já pode nos ver, porque o nosso tempo é diferente... Muitas coisas aconteceram nesses longos anos. Sua neta foi diagnosticada como autista, e hoje eu sei que o senhor tentou me avisar de que algo não ia bem, quando percebeu, primeiro do que todo mundo, a ausência de fala. Se eu fechar os olhos, ainda escuto a doçura de sua voz, dizendo: “Minha filha, essa menina já não deveria estar falando?”  E eu lhe disse que ela era preguiçosa... Pois é , papai, agora eu estou aqui com a  sua princesa e o meu reinado parece ter desmoronado. Cada dia tudo se torna mais difícil de ser solucionado e as coisas  não andam, não acontecem. Em relação a ela, posso lhe dizer que já passamos por dias mais difíceis.

 O seu neto passou para a faculdade pública, como era do seu gosto, mas tenho a impressão de   ainda não ter se encontrado no curso . Ele está feliz, ainda sente a sua falta. Diz que gostaria de conversar sobre política e entender sua visão. Eu agradeço a Deus, porque sei que a defesa  esquerdista construída por ele, entraria em atrito com todo  o seu  conservadorismo. Ele  já tirou carteira de habilitação e está uma fera ao volante ( quase isso). Como o senhor previu, Renan é meu amigo.

Por falar em política, pai, as coisas aqui também andam complicadas. Tem presidente perdendo o direito de exercer o seu cargo, o vice assumindo e colocando o país de cabeça para baixo. Agora estamos em época de eleição para prefeito e eu sei que o senhor, que fez questão de votar mesmo sem precisar pelo avanço da idade, ficaria triste. Os candidatos só se acusam, não há campanhas, entende? Eu que tinha certeza, já comecei a ter vontade de anular.

Na televisão, só o que é ficção lhe interessaria. Uma novela linda terminou  com o ator falecendo ( na vida real) nos capítulos finais. Pensei no quanto o senhor iria se emocionar. A Escolinha do Professor Raimundo voltou com novos integrantes. Eu me lembro do quanto  gostava de assisti-la. O filho do Chico Anysio assumiu o personagem que era feito pelo pai , o mesmo com o Lùcio Mauro Filho. O programa está muito bem escrito e só não parece melhor, porque o senhor não está aqui no meu sofá assistindo.

Dia 20 desse mês fez um ano que a dona Maria se foi. E no mesmo dia que o senhor se foi, a dona Sônia também. As duas deixaram muita saudade. Foi uma época muito difícil.  Talvez disso, o senhor já saiba, né , pai. 

Eu já consigo ir com as crianças à feira de sábado, mas ainda não consegui usar o carrinho que me deu, justamente porque me disse que eu me lembraria do senhor quando o  usasse. Senti medo de passar vergonha em público, mas ele está aqui, guardadinho. Ainda compro peixe na barraca que o senhor gostava, mas nada tem mais o mesmo sabor. Aprendi que o tempero tem a ver com a companhia e  com o momento vivido.

 Outro dia, larguei tudo na feira porque o feirante não me atendeu com atenção. Eu o vi fazendo isso algumas vezes, e agora sei bem o que sentiu.

É claro que o senhor ia querer saber da mãe, né ? Ela está bem cuidada pela Angela, que dedicou a vida ao bem estar da D. Reny. Ela não nos reconhece, mas às vezes tem uns flashes de memória. Vive cheirosinha, arrumadinha , com o cabelo curtinho e bem branquinho. Parece algodão. O senhor estaria orgulhoso da sua filha mais velha. 

A piscina também está azul, mas contratamos uma pessoa para manter assim, porque não conseguimos deixá-la como o senhor fazia.

Pai, publiquei um livro, como o senhor queria que eu fizesse. Sou recebida em algumas  escolas como escritora . Se o senhor já sentia orgulho de mim ao ser chamada de professora, imagine se me visse palestrando em faculdades para cursos de Pedagogia? Não há um só dia desses cinco anos, que eu não tenha pensado no senhor. Na sua satisfação ou na sua insatisfação pelo curso da vida.

Tenho errado, pai. Tenho acertado, caído, levantado. Andei ficando doente. A obesidade vem mostrando que não brinca em serviço. Vou me tratar. Ainda precisam de mim por aqui. 

A vontade de te encontrar me faz pensar em bobagens, em fugas, mas eu tenho consciência de que abreviar o caminho, só o tornaria mais longo e mais difícil. Então , vamos aguardar, né? Ninguém fica aqui para semente. O senhor só foi primeiro do que eu ...  Cada um vai no seu tempo,  estou no aguardo, na fila.

Tenho certeza de que esta bem e espero que essa carta chegue logo ao seu conhecimento.

Sinto falta do telefone tocando e do senhor me cobrando presença sem ter completado nem doze horas de distanciamento. Deitar no teu colo e receber o cafuné de domingo a tarde , me dava energia para começar a semana.

Eu ainda não aprendi a caminhar sozinha, mas estou tentando.

Paizinho querido, eu estou morrendo de saudade.No tempo de Deus, estaremos juntos.



                                           Sua filha , Mônica Jogas

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Hoje



Hoje , como em nenhum outro dia , buscarei  me encontrar c
om o que há de mais íntimo em meu ser.
Hoje, olharei incansavelmente para o céu e,se eu encontrar o Sol, com o seu calor me  energizarei.
Se lá estiverem as nuvens,em cumplicidade, perceberei a chuva que há de purificar-me a alma.
Se eu me deparar com uma estrela cadente , seguirei seu rastro e, por fim, quando esta entrar em choque com a atmosfera fará parte de mim.
Se uma enorme constelação adornar o céu , encontrarei uma e somente uma para ser minha amiga e confidente.Se somente a lua lá se encontrar , refletindo a luz que recebe do nosso astro –rei, eu sorrirei , e junto ao meu singular sorriso,a louvarei com uma linda  prece.
Hoje, sem resistir , atentarei aos mistérios do mar.
Se ele estiver revolto, o respeitarei e desviarei o meu olhar.
Se calmo eu o encontrar , buscarei a  serenidade que tanto necessito para prosseguir ; e no vai- e- vem das suas ondas suplicarei para que da minha vida leve qualquer extremismo e devolva –me a neutralidade.
Hoje, sem adiar,me  curvarei ao encanto das árvores, e  sensivelmente, extrairei  das mais frágeis a perseverança ,
 das mais fortes a altivez.
Erguerei  meu olhar para o cume da que despertar a minha atenção , e me transportarei para abrigar-me tal qual os pássaros em seus galhos firmes, a fim de recuperar o fôlego para seguir em direção a novos horizontes.
Hoje, será o dia de  reconhecer a magnitude de toda uma existência.
Será o dia de encontrar-me, de  reconhecer-me.
Será ,enfim,  o dia de ressuscitar.
                                                            Mônica Jogas

sábado, 23 de julho de 2016

A IMPUREZA DO AMOR

Ah, mas eu te amo...


                                      Te amo!
                               Te amo! Te amo!
                                    Te amo!

com a ignorância de um sábio.
com a impaciência de um monge.
com a incapacidade de um vitorioso.
com as ardentes chamas  de um iceberg.

Te amo !
Te amo! Te amo!
Te amo!

com a astúcia de um ser inanimado.
com a presença de espírito de um criado-mudo.
com a certeza de um amanhã definido.
com o frescor de um escaldante deserto

Te amo!
Te amo Te amo!
Te amo!

com a sonoridade do silêncio.
com o apurado paladar do insípido.
com a clareza do abismo.
com o estrondo volitar de uma pétala.

Ah, mas como te amo...
Te amo!
Te amo! Te amo!
Te amo!

com a mansidão de uma tormenta .
com as incolores listras do arco-íris.
com a constância de uma metamorfose
com o limite do infinito.

Te amo!
 Te amo! Te amo!
 Te amo!

com  a candidez da imoralidade
com a fé Cristã de um ateu
com  fealdade da ternura
com a vitalidade de um  moribundo

Ah, mas eu te amo!

Porque com palavras posso articular
Então não me contenho e desando a gritar
Te amo ! Te amo ! Te amo ! Te amo!
A você , cabe confiar que
Te amo! Te amo Te amo ! Te amo!

E para sempre vou te amar.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Paz


Estou precisando escrever
E , por assim entender,
o que se passa em mim
Porque estou tão só em desatino
Estou precisando divagar sobre as coisas
do céu, do ar e do mar.
Estou precisando rever amigos
reviver através das letras amareladas
e amarrotadas de um antigo diário
Na verdade, eu preciso ler e escrever
Ah, essas linhas tortas, trôpegas
que bailam dentro de mim
Palavras que procuro e encontro
Palavras de desencontro
Palavras que entoam e destoam
de toda estrutura inicial
Palavras que acalentam
que induzem ao sofrimento
Palavras escritas, lidas e refletidas
E todo esse amontoado de letras
me traz paz e me faz mais
Suspiro...
Suspiro...
Tão doce é o pranto que se desdobra em versos
A lágrima de um poeta é água de sofrer, de querer
Quem sabe se o riso discreto é o que esconde o pranto
e o manto que reveste a alma
Calma, menina, a noite se aproxima
e se afina com os teus pensamentos
E as letras surgem para virarem alento à tão triste dor
Estou precisando... Estou precisando
De paz

Prosa pra mais de meia hora

Escrever não é tarefa fácil
Não há como prever o acolá
Contento-me com o aqui e o lá
Ofício forte para quem quer um norte
Ou quem sabe a morte
de um personagem querido
Que chegou distraído
em seu conto de horror
Mas não era suspense?
Ah! Nem pense...
Esqueceu-se de que não há como prever
Sequer quem irá ler
Ou se há de gostar, quem sabe se amarrar ,
viciar ou até ignorar teus escritos?
Teus? Deus, quanta indagação
para a obra que ainda nem nasceu
Valeu pela inspiração
que desta mão andara sumida
E agora parece querer se chegar
Assim, meio combalida
Doida, perdida
Nos meios e entremeios da vida
Se contar, dá um nó
Ai, que dó! E dói...
" Calma que passa" - diz o gordo vigário
Daquele meio retardatário
que chega para lanchar
Com fome de ontem
Parece que nunca passa
Fala, fala e nada resolve
Bem fez o Padre Amaro
Pobre diabo...
Falar de padre também é pecado?
Vixe, melhor ficar calado, amuado...
Sabe-se lá?
Mas isso é conversa pra outra hora
Porque agora está tarde
E, de verdade,
não tenho nem mais meia hora.




quinta-feira, 16 de junho de 2016

De beijos




Beijo que te quero beijo
Beijo de tua língua sã
Beijo de mulher ardente
Que arrepia a mente
Aroma, flor hortelã
Beijo que te quero beijo
Beijo que me deixa louca
Beijo no correr da rua
Madrugada nua
Desbravada e rouca
Beijo que te quero beijo
Beijo que preenche a boca
Beijo, amor salivado
Cheiro de pecado
Pronto a percorrer
Beijo que te quero beijo
Beijo que te quero ter
Beijo em mundo vazio
Á alma, arrepio
Volto a me esconder
Beijo que te quero beijo
Beijo que te quero bem
Beijo de Adão sem Eva
De maçã , me enleva
Vida a conhecer
Beijo que te quero beijo
Beijo, quero um beijo teu.
                                       
                                       Mônica Jogas



sábado, 28 de maio de 2016

Inspiração














Que santa inquietude é essa
Que ao meu espírito invade
Vem do fundo sem pressa
Reflete no peito, arde
O pensamento domina
E estranhamente liberta
A intimidade fascina
Mesmo recém-descoberta
Os desejos incontidos
Tornam-se alvo certeiro
Lampejos tão proibidos
Ocupam espaço inteiro
A mente então se apavora
Sofre e se cala o autor
Surge o escrito sem demora
E os poetas sentem dor
                                     
Mônica Jogas

Falatório



Quero falar sobre as cidades
As vilas , favelas
Falar de gente que passa
De cão que ladra
De ladra que furta
De bicho de estimação
Quero falar de sim e de não
De céu e de terra
De Terra e de Marte
De arte
Quero falar de fruta madura
De romã, maçã
De paraíso e de abismo
De mar
Falar de silêncio
Psiii
De som, de cheiro
De tatear o paladar
Quero falar de um poeta
Poetizar
Quero falar, falar
Falar , falar
Quero falar  de falar.

Mônica Jogas

Casamento ou castigo ?



"Não nasci para ser casada."Não me importo em ser olhada de lado a cada vez que pronuncio tal frase. Esta possui o mesmo impacto de outras que também não me saem da ponta da língua e já nomearam  muitas comunidades orkuteanas e facebokeanas : "Odeio arrumar a casa; não suporto lavar louça; odeio passar roupa." E falo tudo isso do fundo do meu coração, sem receio algum de estar errando.
Qualquer empregado entraria na justiça reclamando o acúmulo de funções. Não há o que me irrite mais do que ler textos valorizando as mil e uma utilidade da mulher. Enaltecendo "Amelias" que por não terem vaidade, se tornaram mulheres de verdade.
 Exaltando àquela  que trabalha fora o dia inteiro, chega a casa e ainda tem tempo de lavar, passar, arrumar, cozinhar , auxiliar os filhos nas tarefas escolares e ufa ! Já estou cansada só de escrever...
Serviço escravo, isso sim!!! Isso não pode ter ligação com amor, mas com  o sofrer.
Talvez a afirmação com a qual abro esse texto, seja o reflexo de um casamento em que acumulei diversas funções.e foram tantas  que precisei de aposentaria compulsória. Quase por invalidez.
Mulher só precisa lavar o que suja, cozinhar o que come e passar o que veste. Salvo as que têm esse serviço como profissão. No mais, uma justa e parcial divisão de tarefas é aceitável , se negociadas entre as partes.
Sabemos de jovens que dividem moradia em época de universidade  e , na divisão, ficam também estabelecidos os serviços domésticos .
Amigos e amigas decidem ir morar juntos e tudo segue a ordem dos universitários. Por que apenas quando se casa, a mulher precisa se deixar escravizar?
A verdade é que em pleno século XXI, tal comportamento ainda é visto como dedicação , prova de amor e o pior, como competência. E , por conseguinte, a ausência, classificada como falta de amor  ou negligência...
Por que será tão difícil de enxergar ?  A soneca aos domingos à tarde é salutar. Chegar  do trabalho, esticar  os pés sobre o sofá faz bem para todo mundo. Perguntar o que temos para o jantar, dá um tempero todo  especial à comida.
Casamento vai além das tarefas domésticas, e mesmo que fossem revistas, eu continuaria dizendo que não nasci para ser casada. Mas por quê? Ah, isso já é assunto para outra hora...
                    Mônica Jogas 03/2016.

Cores


A vida tem muitas cores
Cores que encantam
Cores que brilham
Cores que irritam
Cores que violentam
E, mesmo assim,
Todas elas colorem

Mônica Jogas

Perda


Perdi minha poesia
Perdi a palavra que toca
A cadência sonora
Perdi o encaixe , a rima
Perdi a hora.
Ora... Escreve logo!
Poe outra no lugar...
Não dá!
Perdi...
Perdi minha poesia
Única e completa
Da alma.o retrato
Do coração.o relato
Do silencio, a razão.
Perdi minha poesia
Inconsolável
Dano irreparável
Perda sem soluçao
Valeu pela inspiração
Perdi minha poesia
Que agora vaga
Deserta moribunda
Por entre as mentes
E as gentes
Em algum lugar.
Perdi minha poesia...
Perdi a palavra que toca
A cadência sonora
Perdi o encaixe , a rima
Perdi a hora.
Ora... Escreve logo!
Poe outra no lugar...
Não dá!
Perdi...
Perd minha poesia
Única e completa
Da alma.o retrato
Do coração.o relato
Do silencio, a razão.
Perdi minha poesia
Inconsolável
Dano irreparável
Perda sem soluçao
Valeu pela inspiração
Perdi minha poesia
Que agora vaga
Deserta moribunda
Por entre as mentes
E as gentes
Em algum lugar

Mônica Jogas

Cenário


Cenário
Aquela gente que passa
E parece exaurida
Impaciente
De cara franzida
Olha o pulso
Analógico ou digital
O tempo não perdoa...
"É tarde, é tarde, é tarde até que arde"
Diria o coelho da Alice
"Quanta tolice "
Reclama o velho cansado
"Olha o vocabulário"
Retruca  a velha irritada
"Mas que cenário"
Observa do alto
Um canário
Que habita uma gaiola
E quem lá mora?
O velho cansado ;
A velha irritada
Simbora...