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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ética além da vida

Noutro dia , por um descuido, o celular tocou em sala de aula. Solicitei aos alunos que me dessem licença e saí para atender. Tratava-se de uma amiga, que ligou para me informar a da hora e data do sepultamento do pai de um colega. Na verdade, um colega de trabalho com quem eu me relacionava bem, mas em comum, só mesmo a  divisão de questões pedagógicas. “Sim, ele está arrasado.” Percebi que os dois estavam, eram companheiros de vida. Fui informada ainda de que toda a equipe compareceria e se encontrariam pontualmente às 14 h.
Fiquei parte da manhã, que acabara de começar, pensando na situação e até cogitei a possibilidade de ir pelo colega que , conforme era sabido, estava em péssimas condições  Será que ele gostaria de ser consolado por mim? Logo comecei, para variar, a formular questões. Lembrei-me do dia em que meu paizinho querido se foi e , da triste obrigatoriedade  de cumprimentar pessoas com as quais, sinceramente, não pensei em  partilhar aquele momento. Lembro-me , também, de ter desviado do olhar de alguns visitantes e de perceber os que não conheciam meu pai com um olhar curioso para dentro da urna  a fim de conhecer o anfitrião do evento.
Ora, que momento singular é este.  Quem em sã consciência gostaria de ser visto ou conhecido com a falta de vida estampada no rosto. O mesmo vale para os acamados em UTI. Vi meu pai receber visita de quem nem conviveu com ele, retirando o meu direito e de outros familiares de estarmos um pouco mais de tempo ao seu lado.  Vamos respeitar a vaidade de quem se foi ou de quem não se encontra em condições de receber visitas.
Resolvi , então, criar uma conduta  . Só compareço à ocasião de morte de quem eu já comemorei a vida. Para ser mais clara, só irei ao velório de quem eu fui ao aniversário.  E isso vale como regra geral e absoluta, independente do grau de intimidade ou parentesco que eu tenha com quem perdeu a vida ou de seus familiares.
Desde então, não fico mais em dúvida se compareço ou não a um evento desse quilate. Se eu fui ao seu aniversário, tenha a certeza de que farei de tudo para ir ao seu sepultamento e dividir a dor da sua perda.
O mesmo vale para você que comemorou a passagem do meu aniversário comigo. Sinta-se , verdadeiramente , intimado por mim  a se despedir  quando eu deixar este plano. Se você tiver sido meu amigo, certamente poderá dar consolo aos que sofrerão com  a minha ausência.
Em resumo, quero viver minha palidez funesta apenas ao lado de quem me considerou em vida .  Aos conhecidos dos meus parentes, deixem para consolá-los depois desse meu momento tão singular é extremamente particular . O bom senso deve reinar além da vida.
Quanto ao meu colega, acabei sabendo que nem todos compareceram, conforme o combinado . Talvez outras pessoas tenham seguido a alguma linha de pensamento próxima a minha. E eu não posso negar que me senti muito bem ao encontrá-lo uma semana mais tarde , período de duração do nojo ,  e poder dizer , sem me sentir melindrada, o que   , realmente, me cabia : “ Meus sentimentos”.
                  Mônica Jogas

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